quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um ano de arbítrio


A comemoração do aniversário da lei antifumo tenta fazer uso eleitoreiro dessa canetada autoritária que já nasceu para divulgar a “competência” de José Serra. A lei continua ilegal, pasmem os senhores, porque contraria outra legislação federal sobre o mesmo tema. Alguém finalmente corrigirá esse absurdo, mas o estrago será irreversível: imprensa e autoridades médicas terão aplaudido uma inconstitucionalidade. Nada mau para o espírito civilizatório paulista.

E os repressores passaram esse tempo todo iludindo o distinto público. Primeiro, ao contrário do que diz a propaganda, é mentira que não existem fumódromos seguros. Além disso, a milícia de Serra espalha falsas restrições e ameaças, levando muitos proprietários a tentar proibir o cigarro até mesmo nas vias públicas diante dos estabelecimentos.

É fácil tampar essa nudez escandalosa com jargões na linha “os limites do seu direito”, “qualidade do ar”, “a saúde do próximo” e afins. A restrição ao fumo em ambientes fechados poderia tranqüilamente embutir a legalidade, o bom-senso e a transparência de métodos e princípios. Se não o faz, é porque alguém ali possui motivações suficientemente vexatórias.

5 comentários:

Miguel disse...

Quer dizer então, Guilherme, que o benevolente Estado não pode proibir alguém de jogar essa fumaça fedorenta e venenosa na minha cara, mas pode e deve proibir umas palmadinhas em crianças? A propósito, eu e a grande maioria da minha geração (e da sua também) levei umas palmadas e nem por isso saí por aí ateando fogo em índios e mendigos. Sou capaz de apostar que os filhinhos de papai de Brasília que fizeram aquilo nunca levaram um puxão de orelhas dos pais.

Guilherme Scalzilli disse...

Miguel, poderia até devolver-lhe a pergunta: então o Estado é excessivo quando coibe violências e não quando cerceia direitos?
Mas assim estaria endossando uma comparação distorcida. As crianças não conseguem se defender sozinhas, dispõem apenas da proteção estatal. Adultos sãos e livres, por outro lado, dispensam ajuda para decidir onde e com quem passar as horas ociosas. Numa sociedade verdadeiramente democrática, o seu direito de sorver ar "puro" seria equivalente, não superior, ao de outros contribuintes que preferem respirar veneno.

Miguel disse...

Tudo bem, não considero "umas palmadinhas" violência nenhuma, mas acho que essa discussão não vai ter muito futuro mesmo, visto que VERDADEIRAS VIOLÊNCIAS continuam ocorrendo 24 hs por dia e...deixa pra lá! O ar "puro" foi pra sacanear mesmo, né? Tudo bem, Guilherme, gosto do seu blog e vou continuar a prestigia-lo, sempre que possível. E em tempo, a minha geração (1961) é praticamente a mesma que a sua. Nem 10 anos de diferença!

Diego disse...

Guilherme, uma releitura de Pronominais:

Proibicionais


Joga esse cigarro
Diz o governador, o prefeito
E o puritano enxerido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Não largo meu cigarro por nada

Gustavo disse...

Uma pena que não são todos que podem conhecer oS fumódromoS que existem no aeroporto internacional de Madrid.

Eu tive a felicidade. Não sou fumante, mas fiquei admirado como eles funcionam. Estão instalados dentro do aeroporto, não possuem portas e sequer teto. E é incrível que não se sente cheiro algum do lado de fora.

Aqui uma foto deles: http://www.boston.com/travel/blog/2008/09/cube_of_shame.html (se copiar a foto é aumenta de tamanho).

Basta querer. Mas nessa terra paulista é muito mais fácil proibir do que fiscalizar.