segunda-feira, 29 de junho de 2009

A vitória do piquete

O recurso à paralisação e a formas variadas de protesto transformou-se em instrumento quase obrigatório de reivindicação, incorporado à própria sistemática das negociações. Nem sempre é questão de simples radicalismo. Forças antagônicas poderosas sabem que raramente chegam a consensos imediatos, endurecendo as posições para atingir um meio-termo previamente calculado.
A lógica é cruel, porque parte do pressuposto de que nenhuma solicitação será atendida até que se esgotem todos os instrumentos persuasivos. Pior ainda para os pleitos genéricos (“melhores condições de”), tratados como inconseqüentes e abusivos.
A “estratégia do embate” prevê resultados extremos. O acirramento gera abusos de força física e sanções implacáveis. Para o lado mais fraco, a derrota pode significar sofrimento e perdas materiais. Mas, nessa eventualidade, a vitória do mais forte é bastante relativa. Mesmo que ele preserve a posição privilegiada inicial, corre o risco de terminar desmoralizado pelas manchas indeléveis da violência ou do exagero.
Os grevistas das universidades paulistas dobraram a resistência da cúpula educacional do governo José Serra, agora disposta a negociar. Isso já representa um triunfo dos protestos, piquetes e ocupações, independente do acordo final. Tudo aconteceu porque a reitoria da USP, avessa ao diálogo, apostou no embate.
A inábil ação policial criou um fenômeno político incontrolável, que levou às ruas da capital milhares de estudantes, funcionários e professores em torno de uma causa originalmente restrita. O governo aceitou conversar simplesmente porque não pode espancar civis, nem demitir uma reitora em plena crise (a demissão virá tão logo o clima arrefeça), sem amargar um ônus político de repercussão imprevisível.
O episódio revela os limites do exercício presunçoso do poder e os riscos da opção pela intransigência. Também evidencia a crise de legitimidade que se abate sobre a direção das universidades públicas, “eleitas” sem participação do imenso contingente de alunos, largamente majoritário. Alguém no futuro descobrirá que é mais sábio e justo inserir os estudantes nos processos decisórios do que enfrentá-los como se fossem bandidos. Pois, contra eles, o “mocinho” não tem vez.

2 comentários:

jayme disse...

Guilherme, acho que a coisa não é tão simples. Essa lógica perversa, das greves anuais como parte da rotina universitária, greves que têm pouquíssima ou nenhuma representatividade -- e que, mais grave, não a buscam, basta assistir a uma assembléia ou conversar com uma liderança, digamos, do MNN -- vem se tornando algo como a craca do barco, que já faz o cálculo da velocidade contando com isso. A inabilidade da reitora é evidente. Se ela fosse uma secretária de Estado, seria demitida em setembro ou outubro, depois de mudado o foco da mídia. Mas sendo a reitora da USP, duvido que o governador aja no sentido de tirá-la de lá. Seria uma segunda abertura de flanco para a pecha de usurpador da autonomia universitária. Quanto à participação dos estudantes na decisão de como compor a hierarquia da universidade, me parece um pouco com a idéia do estagiário decidindo os rumos da empresa em pé de igualdade com a diretoria. Não me parece que haja igualdade de condições de avaliação ou mesmo de projeto. De qualquer forma, me conte se souber de exoeriências similares em outras universidades relevantes do mundo. Um abraço,

Guilherme Scalzilli disse...

Jayme,
o desfecho da greve parece indicar um esgotamento de ambas as metodologias: a do movimento grevista e a da reitoria.
A legitimidade dos grevistas não pode ser descartada apenas pq o engajamento é minoritário. Isso acontece em todos os setores de qualquer instituição. Minorias atuantes podem abraçar causas justas e urgentes, embora o caso específico seja mesmo complexo (a ação policial mudou tudo).
Mas, convenhamos, fica difícil falar em representatividade nos protestos sem aplicá-la tb à administração universitária. Discordo de sua comparação com os estagiários: o conceito empresarial é incompatível com o ensino público.
Se os alunos podem eleger deputados, por que não escolhem os dirigentes da instituição onde passam a maior parte dos dias do período mais importante de suas formações? Os membros dos colegiados são mais aptos a tomar decisões administrativas que envolvem milhares de pessoas sem direito a voto? Não lhe parece paternalista e autoritário concentrar todo poder de decisão em professores, funcionários e burocratas?
Uma pesquisa extensa sobre casos de democratização das decisões em universidades estrangeiras seria muito importante para a análise. Mas, se há poucos exemplos disponíveis, é pq esta é uma luta recente, que ainda transcorre no mundo todo.
Abraço do
Guilherme